O crescimento dos mercados de carbono no mundo abre uma nova fronteira para o setor segurador. Mais do que proteger projetos ambientais, o seguro vem assumindo um papel estratégico na credibilidade dos créditos de carbono e na atração de investimentos para iniciativas voltadas à transição para uma economia de baixo carbono.
Essa foi uma das principais mensagens de Sima Adhya, da Oka, empresa especializada em seguros para projetos climáticos e carbono e integrante do mercado Lloyd’s de Londres, durante encontro com representantes brasileiros na London Climate Week, na sede da Guy Carpenter.
Segundo a executiva, a expansão dos mercados regulados de carbono e o aumento da demanda por créditos certificados criam oportunidades significativas para o setor segurador, especialmente em países com grande potencial ambiental, como o Brasil.
“Nossa missão é reduzir os riscos dos projetos climáticos para permitir que o capital flua e acelerar a transição para uma economia de emissões líquidas zero”, afirmou Sima.
Os créditos de carbono representam uma tonelada de carbono que deixou de ser emitida ou que foi removida da atmosfera por meio de projetos ambientais ou tecnológicos. Eles podem ser comercializados entre empresas e governos que buscam compensar suas emissões.
No entanto, a expansão desse mercado também trouxe desafios relacionados à qualidade e à integridade dos créditos emitidos.
“O seguro funciona como um selo adicional de credibilidade. Se um projeto passou pelo processo de subscrição e uma seguradora está disposta a assumir aquele risco, isso aumenta a confiança de investidores e compradores”, explicou Adhya.
Brasil no centro das oportunidades
Para a executiva, poucos países reúnem condições tão favoráveis quanto o Brasil para se beneficiar da expansão do mercado global de carbono.
A combinação entre florestas tropicais, biodiversidade, projetos de conservação e iniciativas de reflorestamento coloca o país em posição privilegiada para a geração de créditos de carbono. Atualmente, grande parte dos créditos brasileiros está associada a projetos de conservação florestal, especialmente na Amazônia.
A regulamentação do mercado brasileiro de carbono, aprovada em dezembro de 2024, também é vista como um fator que pode acelerar o desenvolvimento desse segmento.
“Existe um enorme potencial para que o Brasil amplie a geração de créditos de carbono nas próximas décadas. Com isso, cresce também a necessidade de mecanismos que tragam segurança e confiança para investidores e compradores”, destacou.
O papel do seguro
A Oka desenvolveu produtos específicos para diferentes etapas do ciclo de vida dos créditos de carbono. As coberturas incluem riscos de não emissão ou não entrega dos créditos prometidos, inadimplência de financiamentos concedidos a projetos ambientais, invalidação dos créditos após sua emissão e riscos de dupla contagem — quando um mesmo crédito é utilizado simultaneamente por mais de uma parte.
Esse último tema ganhou relevância com a implementação do Corsia, mecanismo internacional criado pela Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) para compensar as emissões do setor aéreo.
Nesse modelo, determinadas operações exigem que os créditos estejam segurados para garantir que não haja dupla contabilização dos benefícios ambientais.
Segundo Adhya, essa exigência demonstra como o seguro está deixando de ser apenas uma ferramenta financeira complementar para se tornar parte integrante da infraestrutura do mercado de carbono.
“A integridade é um dos maiores desafios dos mercados de carbono. O seguro tem um papel importante para fortalecer a confiança e apoiar a padronização necessária para o crescimento desse mercado.”
Mercado em rápida evolução
Embora ainda seja um segmento emergente, a demanda por seguros ligados a créditos de carbono vem crescendo rapidamente. Nos últimos meses, a Oka ampliou significativamente sua carteira de operações relacionadas ao Corsia, movimento impulsionado pela expectativa de aumento da demanda por créditos de carbono por parte das companhias aéreas nos próximos anos.
Para a executiva, o avanço dos marcos regulatórios e a busca global por soluções de descarbonização indicam que o mercado de carbono deverá ganhar cada vez mais relevância na agenda econômica internacional.

